A Arte é uma teia de aranha

Teia de aranha
De fios de água-viva.
Algumas pequenininhas
apanham apenas
os olhos que as vêem:
grudam no visgo as pupilas.
Certas teias são arrogantes,
grandes, querem apanhar cabeças.
Outras com fios de fibra são fortes,
e, do corpo, a arquiteta
só quer o tronco.
Algumas limpam, misófobas,
de sua estrutura
seca bolha de sabão,
qualquer formiga ou percevejo
que não lhe agrade o cheiro.
Daquelas que faço parte,
falo agora, enfim:
além de grandes e arrogantes
são também histéricas, e da presa
querem tronco, membros e cabeça.
Daquelas que imito
quero o visgo e a trama:
visgo para não-esquecimento
e trama para atordoamento.
Sou anfitriã severa:
convivas se sentam no chão
e morrem de sede.
Na saída, mordidas como souvenir.
Casa de linhas essa minha
- radiante como um sol preto e branco
desenhado por uma menina estrábica,
intoxicada e gorda.
Casa de círculos e círculos,
Lá no centro, a louca esfomeada
(l’universelle araignée).
De manhã,
o orvalho tão fresquinho
as linhas cobre de gotículas.
É casa bela
construída com pérolas transparentes
donde o noivo fugiu em disparada:
a arte é fêmea do gênero devoradora.
A teia é pintura de gênero, cena doméstica,
mãe virtuosa, serviçal trabalhadora,
ao mesmo tempo que é
fanfarronice, bebedeira, devassidão.
A casa é alegoria da teia.
A casa como uma cebola,
Cebola cortada em rodelas.
A casa é essa teia, a casa é a arte, a arte essa cebola.
Tua lágrima é a pérola da teia na manhã orvalhada.
Ou é a gota de orvalho teu olho,
Leitor,
que eu quero devorar.
Teu olho globo,
Salgado, liso, não visgoso.