Sumballein

O símbolo é uma nuvem (ou uma constelação): não há um foco, e sim um conjunto de desdobramentos. A partir de um significado original partem-se ramificações e duplicações até que em nuanças tornam-se um outro conjunto de desdobramentos de caráter oposto ao anterior; este outro grupo será antitético ao primeiro.

Então o símbolo tem duas faces, e em cada uma existe um constelação particular.

Originalmente existia uma curiosa espécie de talismã. Os gregos quebravam algo ao meio – um prato de cerâmica, um osso esculpido, um bastão de madeira polido – e davam cada metade para pessoas que iriam se afastar por muito tempo umas das outras. Caso elas ou seus herdeiros pudessem se re-encontrar um dia, uniriam as duas metades e ... Shazam! se reconheceriam novamente.

Àquele objeto partido davam o nome de Sumballein, signo de reconhecimento, raiz do termo atual “símbolo”.

Como dizia no início, o símbolo é como uma nuvem. As nuvens são condensações de gotículas d’água. Suas formas são dependentes das condições atmosféricas – pressão, temperatura, ventos. Embora os repertórios de suas formas sejam finitas, infinitas são suas variações. Desde a primeira nuvem formada, nenhuma jamais foi igual à outra. “Otros histriones discurrieron que el mundo concluiria cuando se agotara la cifra de sus posibilidades; ya que no puede haber repeticiones (...)” 1.


Assim é a pintura e o trabalho do pintor: uma tarefa infinita com variações. (Mesmo trabalhando sobre um plano bidimensional, definido e definidor). Entretanto, se as formas criativas são infinitas, infinitas não são as interpretações destas formas. Interpretações infinitas de uma obra, supostamente aberta, é impotência deletéria. Há de haver um campo de pertinência, uma nuvem de significados relevantes, fora dos quais certas interpretações são inócuas. Para que o relâmpago do reconhecimento seja disparado, as fendas dos cacos do sumballein devem se casar com os dentes.


1. Jorge Luis Borges, “Los Teólogos”, in. El Aleph, Obras Completas, Emecé Editores,
2006, vol. 1, p. 589.