Pintura: Medicina das Almas

Ponto Um

Uma de suas funções é de ocultar a terrível aflição do tédio: quando a mente não está disposta a atender às suas próprias questões internas, refletindo ou meditando. A mente então necessita de objetos externos para a sua concentração, do contrário sofreria de um estado de desordem: uma infinidade de idéias sem nexo ou relação sucedendo-se e tumultuosamente umas às outras.


O tédio é uma doença dolorosa e destrutiva. Só a pintura pode contrabalançá- la ao oferecer ao indivíduo objetos artificiais de atenção. A atenção é o preliminar ativo para todas as demais faculdades, e, é, por sua vez, ativada por um nexo incansável entre necessidade, desejo e curiosidade.


Para realmente apreender um pintura, requisitos de tempo, persistência, experiência e conhecimento são imprescindíveis.

Hoje, teríamos todos estes predicados?

[Parafraseando abbé Du Bos (1719) e Condillac (1759) quando este
construiu sua ficção da ‘estátua que aprendeu a ter percepção visual’]2


Ponto Dois

Descobrir o que um pintor quis dizer [suas intenções] por meio de uma pintura é como tentar reunir novamente o fogo, as cinzas, e a fumaça para reconstruir um objeto que se queimou. Seria possível fazer o caminho inverso, esta mecânica em reverso, e recriar este sentido/fênix que se dissolveu em fogo, cinza e fumaça?

Em suma, se pode reviver o vivido dos outros?

2. Conforme citado em Michael Baxandall, Sombras e Luzes, Edusp, 1997.