O objeto, ponto de convergência do conhecimento, se
distancia mais e mais, de sorte que ele, para a auto-reflexão
crítica do saber, acaba por constituir o “ponto infinitamente
distante”, tarefa infinita do conhecimento.
Ernst Cassirer


Isagoge

É com imenso temor que escrevo a primeira frase deste texto.

Li em algum lugar, já não me lembro onde, que se até o momento ninguém te acercou com uma boa explanação acerca de teus atos e obras, a obrigação é tua de te explicares! Em um café, após ter cometido um ato aparentemente insano, não é possível levantar o braço e gritar:“Garçom, um exegeta, por favor!”

A explicação da pintura é uma coisa importante demais para ser deixada fora das mãos dos pintores! Assim sendo, como pintor, trago a mim a responsabilidade. O texto que virá tentará responder a três questões acerca da minha pintura: do que se trata, que elementos existem nela, e como eu os apresento.

Dentro da anomia, da falta de regras e parâmetros da arte feita hoje, devo apostar todas as fichas na constituição de um ‘campo’ no qual estarei me autorizando a instaurar meu próprio nómos, minhas próprias regras de conduta a uma obra que deve trazer consigo, como fundamento, o princípio de sua própria percepção como obra. Estou aqui reivindicando o direito de ser juiz, de instituir os critérios de percepção e de apreciação da minha produção pictórica. O texto que virá será uma análise que vê a obra como algo autônomo, independente das condições sociais de sua produção. E não poderia ser diferente, pois é o autor falando da própria obra, portanto, o ângulo de visão, o ponto de vista é, necessariamente, interno. Deixo aos observadores e aos críticos descobrirem as – sempre mais prometidas que encontradas – relações desta obra com seu momento histórico, mostrar seus vínculos com a situação sociopolítica, se isso for de alguma forma possível...