Apresentação

Dada a repugnância de Nelson Maravalhas Junior por qualquer espécie de propaganda de si, ao trabalho minucioso de preparação de um público para suas pinturas, vemos nascer o projeto de publicar “A Tarefa Infinita”. Aqui o público desapareceu e o relato das pinturas se torna o relato de si mesmo na solidão de um monólogo. Nelson Maravalhas vestirá assim, nestas páginas, as roupagens do histrião trágico, mas ele não pretenderá com isso tornar-se um especializado operador do sensível. Não é isso que interessa a Nelson. Outra é sua arte; vislumbrada em algumas pinturas – ele as chama de “arte de concepção monológica”- é a arte de quem fala tendo o vazio diante de si. Ele observa sua obra colocando-se no ponto de vista do observador e, esquecendo-se dele, o substitui. Circunstância essencial, é a música do esquecimento, sem testemunhas.

Nada seria tão mortificante quanto tratá-la só em termos estéticos. Se uma obra pode ser considerada monológica será aquela de quem enunciou sua fórmula. Nestas obras podemos mover-nos livre e obliquamente e, aos nossos passos sempre nos responderá o som - eco de um imenso monólogo – de um fantasma musicista tocando um solo, atravessando anos e contradições. Possível só a partir de uma perfeita solidão, eliminando qualquer interlocutor visível, só lhe resta seu labirinto solitário. A solidão é o mais poderoso de todos os alucinógenos! O que o seduz nela é o entusiasmo da idéia, a concentração da atenção, a febre da mente. Só o pressuposto da solidão pode permitir a Nelson a indiscreta empresa de julgar-se a si próprio.

Este livro se dirige a um cenáculo de pintores e adoradores de imagens – os diversos públicos atraídos por obras de arte. Nem o temor de criar um exército de inimigos implacáveis e poderosos o impediu de publicar este livro. Nelson está ciente que seu dever aqui não é o de criar razões para que sua pintura se torne admirável – pois isso a modificaria apenas para si e não para os outros – e sim o de colocá-la em uma taxionomia e em uma história mais larga do que ela. Suas teses são rápidos esboços inúteis da arrogância e da blasfêmia.

O Tempo irá justificá-las, ou as desbaratarão.
O Editor


P.S.: N.M também produz um outro tipo de pintura que chama de “experimental”, de caráter mais lúdico, mais matérico, mais pictórico, e nada alegórico. Produz, ainda, desenhos em algumas categorias que nomeia como “espontâneos” (desenho e cor a partir do branco do papel), “interferências” (em imagens pré-existentes, sobre os quais editou um livro como o mesmo nome), e “projetivos” (sobre manchas de tinta, chá, café, cevada). Por fim, cria suas “feticharias” objetos bastante estranhos a partir de materiais os mais diversos. Colagem quase-cubista de paráfrases a partir de texto de Roberto Calasso sobre Ecce
Homo de Nietzsche, em 49 degraus, pp. 40-42, Cia. Das Letras, 1997, com pitadas de Borges aqui e ali. *